Projeto O’rebuta Yxula: Nascer da mata
Me chamo Breno Amajunepá, sou indígena do povo Balatiponé, o território do meu povo fica localizado próximo ao município de Barra do Bugres, no estado de Mato Grosso – Brasil.
Sou estudante de Relações Internacionais e atualmente faço parte da rede Engajamundo, uma rede de jovens ativistas socioambientais do Brasil. Foi como representante dessa organização que conheci o programa Restoration Stewards. Também sou pesquisador pelo grupo de pesquisa Juventude Pelo Clima, iniciativa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) no qual surgiu meu projeto de adaptação climática e restauração no meu território.
Como indigena, a pauta ambiental é algo que sempre fez parte da minha vida. No meu povo, a terra nunca foi algo separado da gente. Ela é casa, é memória, é futuro, o território é a nossa mãe.
Cheguei ao trabalho socioambiental há pouco mais de 3 anos. Desde então, já vivenciei experiências incríveis, desde trabalhos voluntários até envolvendo instituições renomadas
Ao longo da minha caminhada, fui entendendo que muitos dos problemas ambientais que vemos hoje não são só sobre natureza, mas sobre pessoas. Sobre quem pode decidir, quem é ouvido e quem fica de fora. Ver territórios sendo destruídos, rios secando e comunidades sendo ignoradas me fez perceber que eu queria fazer parte da construção de algo diferente.
Este trabalho de restauração foi construído coletivamente com a comunidade para ser desenvolvido no território Umutina – Balatiponé, com paisagens do Cerrado e da Amazônia, dois biomas presentes no meu território.
São lugares vivos, cheios de história, mas marcados pelos impactos ambientais causados pelas mudanças do clima e políticas que quase nunca chegam para proteger quem está ali.

Registros dos membros Juventude Pelo Clima. Foto: IPAM
O projeto de restauração que construímos nasce desse chão. Nossas atividades surgem a partir da iniciativa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que reuniu 17 jovens da amazônia brasileira para integrarem o grupo de pesquisa Juventude pelo Clima. O objetivo desse programa era desenvolver projetos de adaptação climática nos nossos territórios, visto que somos desassistidos pelas políticas públicas ambientais.
O projeto iniciou-se no primeiro semestre de 2025 e as formações se deram ao longo do ano. Como se trata de uma construção conjunta com a comunidade, o primeiro momento foi marcado pela identificação dos principais impactos das mudanças do clima nos nossos territórios, as consequências, quem e como são atingidos pelos impactos ambientais e a partir disso, pensar ações e metas de adaptação climática.
Com alguns membros do meu povo, nasceu o projeto O’rebuta Yxula (Nascer da mata). O projeto aborda os nossos mitos da origem do povo Balatiponé, a localização do nosso território e os biomas que o compõem.
Coletivamente, identificamos os nossos conhecimentos tradicionais de manuseio do solo, plantio e colheita a partir do calendário lunar, que a partir das fases da lua nos orienta para fazer o plantio, e outros marcadores de tempos dependentes da natureza. Esse conhecimento ancestral orienta as épocas ideais para fazer a derrubada da mata e fazer o plantio, bem como os marcadores de tempo que indicavam as estações de chuva e seca e de frio e calor.
Por meio desse projeto foram apontadas como principais consequências da crise ambiental em nosso território o aumento das temperaturas e mudanças no ciclo das chuvas, que intensificam as queimadas e causam nos nossos rios secas prolongadas.
Essas mudanças afetam a nossa forma de viver e nossas práticas culturais, como a pesca tradicional do Timbó, também privando as pessoas de diferentes gerações de terem uma relação mais íntima com a natureza. Também foram influenciados o uso dos marcadores de tempo, por meio dos quais conseguimos identificar quais são as estações do ano a partir do comportamento dos animais.
A partir desse processo de escuta e construção, foram elaboradas metas e ações para lidar com os impactos causados pelas mudanças do clima no nosso território. Essas ações vão desde garantir a preservação das plantas frutíferas, medicinais e as usadas para confecção de artesanatos, à educação ambiental e fortalecimento de ações já realizadas no território.
A restauração das nossas nascentes e restaurações das áreas degradadas e atingidas pelo fogo a partir do reflorestamento, foram apontadas como ações prioritárias.
Este trabalho é sobre reconectar pessoas com o território. Trabalhamos com jovens, estudantes, lideranças e aliados que acreditam que a restauração precisa ter gente no seu centro. Aqui no território já existe educação ambiental, articulação política e agora precisamos de pessoas, instituições que apoiam iniciativas locais que já existem há muito tempo, mas quase nunca recebem visibilidade ou apoio.

Registros dos estudantes da escola Julá Paré em atividades de reflorestamento. Fotos: Luana Calomezoré
Nada disso acontece sozinho. Existe uma rede de pessoas caminhando juntas, errando, aprendendo e tentando fazer a restauração do melhor jeito possível. São jovens que carregam histórias parecidas com a minha, de luta e também de esperança. Nos motivamos porque sabemos que, se não formos nós, muita coisa vai continuar sendo decidida sem a nossa voz.
O que me move e o que move todo mundo que está nesse trabalho é o cuidado. Cuidar da terra, cuidar das pessoas, cuidar do futuro. Acreditamos que restaurar não é só plantar árvores. É ouvir nós que vivemos aqui. É respeitar os saberes tradicionais. É entender que não existe solução climática sem justiça social.
Eu quero que o mundo saiba que essas paisagens não são vazias, nem atrasadas, nem disponíveis para exploração. O Cerrado é mais do que um mapa seco, ele é água, alimento e vida. A Amazônia não é só uma floresta distante, ela é gente, cultura e resistência. Quando esses lugares são destruídos, não é só a natureza que perde, todo mundo perde.
A restauração liderada por jovens é tão importante porque carregamos urgência no corpo. Somos uma geração que cresceu vendo crise atrás de crise, mas que também aprendeu a se organizar, a comunicar e a criar redes. Misturamos tecnologia com ancestralidade, ciência com vivência, ativismo com afeto. E isso muda tudo.
No território as iniciativas existentes partem da escola Julá Paré. Como é uma escola indígena que tem como pilar o ensino diferenciado, a grade curricular detêm as disciplinas de práticas culturais e agroecológicas que permitem realizações de atividades diretas com o território.
A escola lidera atividades de mutirão de limpezas envolvendo toda a comunidade, em momentos em que as pessoas se juntam voluntariamente para fazer a limpeza do território, retirando os lixos e cuidando do córrego.
Além disso, a escola possui um pequeno viveiro de plantas nativas da Amazônia e Cerrado e fazem o plantio dessas espécies na comunidade ou em áreas atingidas pelo fogo. Esse viveiro permite o plantio próximo às nascentes, entendendo que manter essa área reflorestada é fundamental para manter a saúde do rio, que tem sido diretamente afetado pela seca.

Córrego 18 seco, o principal corrego que passa pelo território Umutina. Foto: Breno Amajunepá
O desafio dessas práticas de restauração é a falta de conhecimento técnico, que acaba limitando as nossas ações. Ademais, como mencionado, os nossos rios são os mais afetados pela seca. O principal córrego que passa no centro do território e que fez parte da infância de muitas gerações, desde 2022 vem secando totalmente, coisa que não acontecia antes.
Isso também reflete uma perda cultural gigantesca – quando criança o córrego 18 era onde aprendíamos a nadar. As nossas baías eram onde fazíamos a pesca do timbó, fazíamos uma grande festa, uma verdadeira confraternização entre as pessoas, na qual a comunidade se mobiliava para preparar a jolorukwá (bebida tradicional), humataká (farinha de mandioca) e jukuputu (beiju).
Infelizmente, devido às secas extremas, essas práticas estão se perdendo.

Pesca do Timbó, realizado em umas das baías do território Umutina. Foto: Linda Amajunepá
Devido a essa nova realidade, o desejo de fazer algo se tornou urgente. Como não tinha referência de pessoas ou até mesmo instituições que trabalhassem com a pauta ambiental, somente quando entrei na universidade, comecei a mergulhar na luta pela preservação do meio ambiente.
Então, comecei a me engajar nas pautas, participar de redes, instituições e programas que trabalham com a proteção e preservação do meio ambiente e das pessoas que estão inseridos nesses territórios.
Foi caminhando a partir desse desejo de proteger o meu território e as riquezas naturais presentes, proteger o meu povo e manter vivo a nossa cultura, que cheguei onde me encontro hoje. Um jovem indígena, estudante, comprometido com o meu povo, que já esteve em espaços importantes de debates como as COPs, redes de pesquisas e projetos com temáticas ambientais, sociais e culturais, sempre levando comigo as minhas raízes e o meu povo.
Cuidar do território é uma responsabilidade coletiva. É fazer com o coração aberto, mesmo quando cansa. É acreditar que ainda dá tempo de restaurar não só paisagens, mas relações. E que, quando jovens ocupam esse espaço, deixa de ser só um projeto, ela vira um caminho.
Quero desde já agradecer pela oportunidade de fazer parte do Restoration Stewards, estou muito feliz e animado para aprender, contribuir e trocar experiências ao longo desse processo, que com certeza será lindo.
Paykwrypyá (Obrigado).